Lembro-me de quando eu tinha 10 anos e frequentava uma escolinha de futebol. Havia vários dias de treino e alguns de jogos. O jogo era sempre um grande evento: arquibancada cheia, equipes de fora, uniformes “oficiais”... e um aperto no peito.

O treinador chegava sério, iniciava a preleção escalando os titulares e finalizava com instruções táticas que mal entendíamos. Eu não sabia o que era mais difícil: começar jogando (e carregar o peso de não poder errar) ou esperar no banco (com aquele misto amargo de vergonha e ansiedade).

Meu pai estava lá todo jogo. Como eu queria impressioná-lo! Poder mostrar minhas habilidades, meu potencial. Nas vezes em que marquei gols, a sensação era de uma alegria extremamente aliviante - “ufa, provei que sei”.

Curiosamente, quando o apito inicial soava, parecia que eu “desaprendia” a jogar futebol. Em qualquer outro lugar que eu jogasse, conseguia “entrar no jogo” (no estado de jogo) com facilidade: driblar, passar a bola com qualidade, finalizar com precisão, tomar boas decisões, ser competitivo e corajoso… Tudo isso curtindo o momento, entregue ao jogo. Mas na escolinha era diferente.

E é aqui que a maioria conclui: “Ah, ele sentia a pressão quando era pra valer... Precisava trabalhar mais o psicológico…” - ou “o menino não tinha personalidade”.

Isso é uma meia-verdade. E meias-verdades são perigosas.

Na minha infância e adolescência, eu não tinha a mínima condição de entender o que acontecia comigo (e com tantas outras crianças). Hoje, entro neste campo com a perspectiva de alguém que há anos busca compreender a realidade do futebol em sua essência, para além da superficialidade.

Se o seu filho “voa” no treino e trava no jogo, o problema não está numa suposta fraqueza emocional dele ou numa falta de perfil comportamental para competir. O problema está em algum ponto entre incoerências na prática pedagógica e os efeitos da cultura de profissionalização precoce no Brasil.

1. A INJUSTIÇA PEDAGÓGICA: ROBÔS VS. ARTISTAS

Existem algumas controvérsias na forma como muitos ensinam futebol. Colocam as crianças em filas e fazem elas repetirem os mesmos gestos técnicos inúmeras vezes (treino analítico). Elas chutam a bola parada, contornam cones que não se mexem, ensaiam movimentações táticas. Tudo em um ambiente previsível e controlado.

Mas o jogo de futebol é o oposto disso. O jogo é imprevisível, aleatório, caótico e subjetivamente representado (recruta a imaginação). Se essas características não estiverem presentes nos treinos, então a criança não está aprendendo o jogo. E se não estiver aprendendo o jogo, não conseguirá jogar bem.

No jogo, o “cone” (adversário) não fica estático - ele tenta roubar a bola. O tempo para decidir e agir não é infinito - é curto. O espaço é dinâmico, reduzido na maioria dos lances, e gerenciado por movimentações intencionais (aplicação tática). Os gestos técnicos são únicos a cada jogada, realizados para responder às demandas específicas de cada situação. O contexto do jogo é complexo: pede continuamente por percepção, autonomia para decidir, liberdade, criatividade, espontaneidade e adaptabilidade.

No final de semana, espera-se que a criança seja um artista (tome decisões rápidas, criativas e assertivas). Porém, durante a semana inteira, treina-se a criança para ser um robô (repetir gestos mecânicos e executar programas pré-definidos). A conta não fecha.

Este é o primeiro aspecto relacionado à dificuldade que muitas crianças enfrentam nos jogos formais: treinos descontextualizados e esvaziados de sentido.

2. A PROFISSIONALIZAÇÃO PRECOCE: QUANTO MAIS CEDO, MELHOR?

Consideremos agora um ambiente de ensino e aprendizagem que ofereça às crianças treinos representativos do jogo. Tal perspectiva é promissora, uma vez que favorece o desenvolvimento de todas as habilidades requisitadas na complexa dinâmica do futebol. No entanto, o solo com aparência de fertilidade pode estar contaminado. E ainda que seja fértil, o calor e os espinhos podem sufocar as sementes, matando-as antes de brotarem e florescerem.

Quando se trata de futebol, a tendência no nosso país é a máxima “quanto mais cedo, melhor”. Quanto mais cedo se destacar, quanto mais cedo for titular, quanto mais cedo for selecionado para um clube de base, quanto mais cedo conseguir um empresário influente, quanto mais cedo jogar uma competição internacional, quanto mais cedo assinar um contrato, quanto mais cedo estrear na equipe principal, quanto mais cedo for campeão, quanto mais cedo for convocado para a seleção... A escadinha é infinita.

Essa ideia, bastante reforçada pela mídia, embora pareça lógica, não possui fundamentação científica nem estatística.

Dos “mini atletas” das categorias de base, quantos chegarão ao profissional? Historicamente, menos de 1%. Aqui, a previsão já falhou por completo. Pois se fosse verdadeira, aqueles que chegaram antes (quanto mais cedo...) teriam que ter uma grande probabilidade de avançar no processo de desenvolvimento esportivo. Não é o que acontece.

No futebol de elite há também diversos casos que testemunham contra a progressão de carreira precoce. A maioria dos jogadores precisa de tempo para amadurecer antes de ganhar notoriedade. Quando jovens atletas não encontram clubes e treinadores que sabem como conduzir o processo, enfrentam cobranças de todos os lados e entram num poço de sofrimento muito difícil de escapar.

Se observarmos a idade dos ganhadores da Bola de Ouro e do FIFA The Best, veremos que, em média, o auge dos melhores jogadores do mundo tem ocorrido para além dos 30 anos. Então, como justificar a pressa em ver crianças progredirem no “plano de carreira” tão cedo?

A quem interessa a precocidade no futebol? Quem mais se beneficia e lucra através dessa cultura ilógica?

Repito: o “quanto mais cedo melhor” é amplamente propagado pela mídia. Qualquer mentira dita repetidas vezes, e de várias formas, se torna verdade. Não é à toa que paira nos pais o medo dos filhos “perderem as oportunidades”. Se não aproveitar a chance...

Mas, e se a pressa em “aproveitar” as chances for justamente o caminho que levará a criança a perdê-las em definitivo? Perder, por exemplo, a oportunidade de desenvolver todo o seu potencial humano (que inclui o esportivo) de forma segura e plena (não significando obrigatoriamente tornar-se jogador de futebol). Cuidado!

2.1 PROFISSIONALIZAÇÃO: QUANTO MAIS CEDO, PIOR

Nos jogos do futebol infantil, independentemente da idade, temos então os efeitos prejudiciais dessa cultura a cada jogo e competição: a guerra pela glória da vitória. No dia de jogo, a atmosfera muda. O grito do treinador na beira do campo muda. A expectativa do pai no carro muda. O jogo deixa de ser uma “brincadeira infantil” para virar uma “mini final de Copa do Mundo”. Por quê?

Porque todos estão com pressa, correndo atrás das oportunidades.

Essa ambição coletiva gera um ambiente de tensão emocional absurdamente incompatível com a zona de desenvolvimento das crianças. São forçadas a lidar com desafios psicológicos grandes demais para elas. Para se defender, entram no modo de sobrevivência: não jogam mais para criar ou se divertir e passam a jogar para não errar, não falhar, não perder, não serem punidas.

E assim, experiências que deveriam ser ricas em diversão e aprendizagem se transformam em sucessivos “mini compromissos profissionais”. Projetados para satisfazer os desejos das federações, clubes, empresários, treinadores, pais… Menos para promover os verdadeiros interesses das crianças.

Depois vêm as consequências: traumas, lesões, dificuldades emocionais, exaustão, perda do interesse e até o abandono do esporte.

Portanto, o segundo aspecto relacionado à dificuldade que muitas crianças enfrentam nos jogos formais é a adulteração do futebol infantil: a brincadeira transformada em promoção de carreira e ativo de stakeholders.

QUAL A SOLUÇÃO?

Talvez, ao ler este texto, você tenha percebido muita coisa errada em relação à vivência do seu filho no futebol. Se este for o seu caso, não se desespere. Sinta-se aliviado por ter os olhos abertos e encorajado a cumprir o seu papel: fazer o seu melhor por ele, com excelência e coração.

O sistema violenta o futebol infantil. Seu filho travar nos jogos é um efeito colateral dentre vários outros. Como você pode ajudá-lo?

Priorizar o bem-estar da criança, ter paciência, não forçá-la a ter “comprometimento de profissional”, garantir um ambiente psicológico seguro que a incentive a jogar por prazer, com liberdade, sem medo de errar nem de decepcionar quem ela ama, é um ótimo começo.

Observar atentamente o ambiente em que seu filho joga, a filosofia do clube ou da escolinha, os comportamentos dos treinadores, o clima das competições, as regras implícitas - jogam apenas os “melhores”? - pode te revelar se o solo que tem nutrido seu filho é fértil ou contaminado.

A bola agora está com você.

Permita-se aprender gradativamente e continue a refletir sobre esses aspectos. Questione-se:

  1. Como estou projetando a participação do meu filho no futebol? Por quê?
  2. Qual é a concepção de futebol do clube ou da escolinha do meu filho? O que pretendem com as crianças? Qual a qualidade do ensino?
  3. Quais têm sido as minhas expectativas nos jogos?
  4. Como tenho me comportado na arquibancada?
  5. Como o meu filho percebe as minhas reações quando ele joga?
  6. Estou me preocupando mais com vitórias ou com desenvolvimento integral? - lembrando que o futebol é um esporte coletivo; não é só seu filho que joga e que precisa se desenvolver.

Responder a essas (e outras) questões é essencial para avançarmos no nosso processo de autoconhecimento e aprendizado.

Sobretudo, seja sincero consigo mesmo e com a sua família: se perceber qualquer dificuldade sua ou do seu filho em lidar com a dimensão psicológica (eventos passados, preocupações com o futuro, emoções, pensamentos, frustrações, relacionamentos, adaptações… qualquer sofrimento), busque ajuda especializada - procure por psicólogos, e não “coachs”.

No jogo que mais importa, com saúde mental não se brinca.

Um abraço,

Victor Butzloff