Fabinho recebeu a bola com espaço para jogar.

O empate eliminava sua equipe pela terceira vez consecutiva nas semifinais do Campeonato Paulista.

Ergueu a cabeça, como exige o manual, e leu o ambiente.

Em frações de segundos, de novo, percebeu-se refém do dilema eterno.

Podia cortar pra dentro, conduzir alguns metros e finalizar com o pé esquerdo.

Como seu pai havia pedido no intervalo do jogo:

- Fabinho! Corta pra bater!! Corta pra bater!!

Não era a melhor escolha.

Os adversários estavam bem prevenidos, fechando em quatro a entrada da área no corredor central para segurar o resultado.

O mais alto do time pedia na marca penal pra tentar de cabeça.

Viu o lateral direito ultrapassar pelas costas, igual na jogada trabalhada no treino de quinta-feira, relembrada pelo treinador no vestiário:

- Finge que vai por dentro e enfia por fora pro Luís! Ele vai achar o espaço entrelinhas, entendeu? Fizemos isso várias vezes nessa semana... Finge que vai e acha ele!

Fabinho achou.

Luís recebeu o passe em condições ótimas para o cruzamento rasteiro.

Meteu pro centroavante de primeira.

O atacante chegou batendo de chapa e... Isolou.

Fim de jogo, 1 x 1, eliminados mais uma vez.

Imediatamente veio o pensamento: “eu deveria ter arriscado como meu pai mandou”.

Na caminhada até o carro, o silêncio reprovador esgoelava novamente.

Seriam duas horas de viagem até chegar em casa.

Olhar fixo na estrada, semblante sério, cotovelo esquerdo na janela, cabeça apoiada, respirações profundas, rádio num jogo qualquer.

Clima de “eu não falei? então por que não fez?”.

O garoto perdeu a partida e o campeonato.

Pior foi ter perdido o que mais queria ganhar, como vinha perdendo há anos...

Renan jamais o criticava após o jogo, nem entrava nos pormenores táticos.

Afinal, nas suas palavras, “tudo acaba quando termina” e não havia como mudar o placar.

Mas as suas reações eram gritantes.

Enganava a si mesmo, achando que escondia muito bem a frustração com a performance do filho

Nessa nítida pressão invisível, sempre que Fabinho não correspondia, o pai explodia seu desgosto violentamente.

Pressão invisível:

“Essa forma de pressão ocorre quando os pais, embora não verbalizem explicitamente suas exigências de desempenho, comunicam suas expectativas de maneira sutil, por meio de gestos, expressões faciais de desapontamento, suspiros, olhares críticos ou comparações indiretas com outros colegas ou com o próprio histórico de vida esportiva com o filho. Essa pressão tácita, por ser menos explícita, pode ser ainda mais danosa, pois o jovem atleta se sente compelido a performar bem para agradar ou para evitar a desaprovação, sem que haja um canal direto para discutir ou desafiar essas expectativas veladas. Tal fenômeno afeta diretamente a motivação intrínseca, deslocando o foco do aprendiz do prazer inerente à prática esportiva para o medo de decepcionar, resultando em ansiedade de desempenho e uma diminuição da satisfação pessoal” (Balbino, 2026, p. 13).

Referência

BALBINO, H. F. Entre o apoio e a pressão: o papel dos pais no desenvolvimento e desempenho de jovens atletas. In: DE ROSE JUNIOR, D.; ROCHA, A. J. P.; FLACH, M. C. (org.). “Vamos jogar juntos?”: o papel da família no desenvolvimento esportivo de crianças e adolescentes. São Paulo: Edições EACH, 2026. p. 8-17. DOI 10.11606/9786588503843.

Por Victor Butzloff