(Foto de @ramonkaphotography no Pexels: “Uma vista cativante em preto e branco do icônico canal de Amsterdã, refletindo sua arquitetura histórica e ruas vibrantes”.)


No segundo capítulo do livro “Soccer Against the Enemy” (Futebol Contra o Inimigo), Simon Kuper conta sobre a influência (um tanto contraditória) de um jogo no sentimento de uma nação inteira - percebo que o livro será muito sobre isso.

Na Holanda, em 1988, 9 milhões de pessoas (60% da população) foram às ruas para comemorar a vitória por 2 x 1 sobre os alemães na semifinal da Eurocopa.

Uma partida carregada de afetos e simbolismos históricos. Mais do que um triunfo esportivo, a conquista em campo representou uma vingança épica contra um acúmulo de agressões e ofensas à identidade e ao orgulho nacional:

  1. Por quase 5 anos, de 1940 a 1945, a Holanda foi ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial;
  2. Em 1974, a Alemanha Ocidental frustrou o sonho do lendário Carrossel Holandês de Johan Cruyff e Rinus Michels, superando a brilhante equipe laranja que encantava o mundo por 2 a 1 na final;
  3. Em 1978, na fase de grupos da Copa do Mundo, a Holanda enfrentou os alemães num embate sofrido que terminou 2 a 2. Da equipe holandesa, 6 jogadores haviam jogado a final de 1974. Como ocorrido antes, a Alemanha Ocidental saiu na frente do placar logo no início do jogo. Após igualar o marcador, a Holanda adotou uma postura defensiva, contentando-se com o empate. Aos 70 min os alemães fizeram 2 a 1. E aos 82 min a Holanda marcou o segundo gol. Uma partida complicada, jogada sob uma pressão provavelmente agravada pelo trauma da derrota anterior;
  4. Em 1980, na fase de grupos da Eurocopa, outra derrota para a Alemanha Ocidental, por 3 a 2.

Alemanha Ocidental 1 x 2 Holanda - Semifinal da Eurocopa de 1988

(Clique aqui para assistir aos gols da partida no Youtube)

No dia 21 de junho de 1988, no Volksparkstadion, em Hamburgo, na Alemanha Ocidental, diante de 61.300 pessoas, a Holanda enfim venceu:

  1. Aos 55 min, Lothar Matthäus marcou de pênalti, colocando os donos da casa em vantagem por 1 a 0;
  2. Aos 74 min, Ronald Koeman empatou o jogo em 1 a 1, também de pênalti;
  3. Aos 89 min, Marco van Basten se lançou de carrinho para chutar cruzado, garantindo a vitória por 2 a 1 pouco antes do fim do tempo regulamentar.

Essa vitória foi o primeiro triunfo da Holanda contra a Alemanha em solo alemão em 32 anos.

Também foi a primeira vitória contra a Alemanha em uma competição.

Liberando um grito engasgado a décadas, o país todo foi à loucura e preencheu as ruas em comemoração.

Foi por causa de uma partida de futebol, vencida em Hamburgo no ano de 1988, que as feridas da ocupação nazista na guerra reapareceram em um sentimento coletivo sem precedentes na nação.

“It feels as though we’ve won the war at last”, a former Resistance fighter said on TV. (p. 4)

“Parece que finalmente vencemos a guerra”, disse um ex-combatente da Resistência na TV.

Rinus Michels: “an extra feeling of satisfaction for reasons which I don’t want to sum up now”. (p. 5)

Rinus Michels: "um sentimento extra de satisfação por razões que não quero enumerar agora”.

Curiosamente, lembrando do tempo em que morou na Holanda, o autor conta que, quando a Inglaterra enfrentou a Alemanha Ocidental em 1982, a maioria dos adolescentes da sua sala na escola torceram para os alemães.

Parece, portanto, que a narrativa construída em torno do jogo de 1988 ganhou uma carga afetiva inédita, envolvendo uma expectativa de retaliação (ou uma necessidade de reafirmação) que permanecia latente na sociedade holandesa.

Não era apenas sobre as sucessivas frustrações em campo. Era sobre algo maior do que resultados esportivos.

Simon Kuper diz, na página 8, que “the euphoria after Hamburg took even the Dutch by surprise” (A euforia após Hamburgo pegou até os holandeses de surpresa).

O impacto na nação

Na mesma página, ele compartilha a evidência da influência sinistra dessa partida no imaginário e na opinião pública:

“It seems that on the evening of Hamburg, Dutch views of Germans changed for the worse. The evidence support this. In 1993, the Netherlands Institute of International Relation ‘Clingendael’ produced a report on Dutch teenagers’ attitudes to Germans. Asked to rank EC countries in order of affection, the teenagers placed Germany bottom. (The Republic of Ireland finished second last, probably because the Dutch think that that is where sectarian murders are. Britain came third last. Spain was the most popular natio after Holland, with Luxembourg in third place.) The report showed that Dutch teenagers hate Germans far more than most adult Dutchmen do. Only those who lived through the Occupation ar as antagonistic. ‘There is reason for concern’, the report concluded. A change had taken place, and its cause lay in soccer itself.”

Parece que, na noite de Hamburgo, a visão dos holandeses sobre os alemães mudou para pior. As evidências confirmam isso. Em 1993, o Instituto de Relações Internacionais da Holanda 'Clingendael' publicou um relatório sobre a atitude dos adolescentes holandeses em relação aos alemães. Questionados a classificar os países da Comunidade Europeia por ordem de afeto, os adolescentes colocaram a Alemanha em último lugar. (A República da Irlanda ficou em penúltimo, provavelmente porque os holandeses pensam que é lá que ocorrem os assassinatos sectários. A Grã-Bretanha ficou em antepenúltimo. A Espanha foi a nação mais popular depois da Holanda, com Luxemburgo em terceiro lugar). O relatório mostrou que os adolescentes holandeses odeiam os alemães muito mais do que a maioria dos adultos holandeses. Apenas aqueles que viveram a Ocupação são tão antagônicos. 'Há motivos para preocupação', concluiu o relatório. Uma mudança havia ocorrido, e sua causa estava no próprio futebol.

Veja se eu entendi direito: por causa dessa vitória no futebol, os holandeses passaram a odiar os alemães.

Como assim?

Um ódio que permanece adormecido e se manifesta mais de 40 anos depois?

Eles precisavam ganhar no jogo para ter a coragem de manifestar suas emoções?

Ou foi o contexto específico deste jogo que, muito bem costurado com o passado - dentro e fora de campo - entre os países vizinhos, culminou no ódio coletivo contra a Alemanha?

De repente, os alemães passaram a representar tudo o que é mau, e os holandeses incorporaram tudo o que é bom? Não podemos deixar de lembrar da intolerância que a Holanda já demonstravam contra alguns grupos étnicos (ex.: turcos, marroquinos e surinameses).

Muito curioso tudo isso… Preciso me aprofundar em vários conceitos e autores da sociologia do esporte e da psicologia social para compreender melhor esse fenômeno.

Mais curioso ainda é perceber que, ao menos aparentemente, esse sentimento de repulsa não perdurou. A rivalidade entre Holanda e Alemanha foi se estabilizando ao longo das últimas décadas, limitando-se mais aos contornos das quatro linhas.

Embora esse caso (Holanda x Alemanha) seja interessantíssimo, para mim, a questão que fica não é a profundidade ou a característica dessa oscilação no sentimento holandês para com os alemães.

São outras dúvidas que me atravessam:

  1. Qual é o potencial do futebol na influência de um sentimento nacional?
  2. Quais são os limites do poder representacional do jogo?
  3. Compreendendo melhor esse potencial e esses limites, qual papel eu quero exercer na dimensão histórico-social do futebol?

Seguirei refletindo.

Por Victor Butzloff