Foto de @marcelo-gonzalez no Pexels: Visão detalhada de um buraco no Muro de Berlim, mostrando texturas e história.


Baseado na história de Helmut Klopfleisch:


Você nasce em uma cidade que abriga um dos principais times de futebol do país.

Herda dos seus pais o amor pelo clube, que se torna do seu coração.

Na infância, acumula memórias de vários momentos em família nos arredores do gigantesco estádio e nas arquibancadas tomadas pela multidão.

Aprende a jogar o melhor jogo do mundo, entregando-se de corpo e alma como 12º jogador em cada lance dos noventa minutos da partida.

Atinge a adolescência convicto de que sua identidade, ainda por se completar, já está pintada com as cores que representam a vida e a morte.

Com o pensamento crítico expandindo-se dia a dia, passa a ser protagonista de discussões sobre tudo o que envolve sua maior paixão.

Aos finais de semana, levanta antes de acordar no rito sagrado de aquecimento para o evento que te traz mais alegria.

Torce, vibra, sofre. Respira com alívio e gratidão.

Rodada a rodada, de vitória a derrotas e vitórias, os anos vão passando... Até que, de repente, surge um muro.

Um enorme muro, dividindo a cidade inteira em duas metades: o lado ocidental e o lado oriental.

Duas regiões rigorosamente demarcadas, com travessia proibida.

Você e sua família ficam na zona do oriente.

O estádio e o clube do seu coração, no ocidente.

No primeiro dia você nega que essa separação é real: "amanhã vou acordar e tudo estará como antes".

Passam-se semanas, e chega o terceiro jogo que você não consegue assistir.

Encostados no muro, uma segunda família é formada.

Atentos, os ouvidos escutam as reações no estádio oculto aos olhos, mas vívido nos corações.

Torcem, vibram, sofrem. Respiram com raiva e saudades.

Os donos do muro ficam incomodados com a aglomeração semanal e pressionam o time a mudar para mais longe.

Proíbem a circulação de notícias e posts sobre qualquer fato ou opinião relacionada ao que acontece do outro lado.

Tornam o hábito de torcer por aquele time uma violação.

Sua nova família se adapta e aprende a jogar outro jogo: o da resistência.

Unidos pela mesma paixão, organizam-se em encontros clandestinos regulares sob rígidos protocolos de sigilo e segurança.

Infiltram-se no outro lado, contrabandeiam informações e, por milagre, misericórdia ou manipulação, passam a receber visitantes ilustres em missões secretas: jogadores, treinadores e dirigentes começam a realizar excursões ilegais para nutrir o vínculo do clube com seus torcedores exilados.

Por 28 anos, você prova que um muro não separa o coração.

Ignora os apelos do governo para que todos apoiem o Time do Oriente.

Acaba sendo investigado, perseguido, preso, interrogado.

Resiste bravamente, reivindicando o direito da liberdade de torcer.

Até que enfim, o sistema fechado se rompe e o muro cai.

O pesadelo da realidade é contaminado por novos sonhos.

Chega o dia do reencontro, na casa própria que você nunca conheceu.

Seu filho poderá finalmente sentir o que palavras jamais poderiam explicar.

O gigantesco estádio, a arquibancada tomada pela multidão, os heróis em campo, bola no centro, apita o árbitro...

Torcem, vibram, sofrem, acordam.

A saudades se transforma em dúvidas e decepção.

Seus opressores, assentados como convidados de honra, no jogo do seu clube do coração.

Você perdoa e permanece fiel: refém da sua eterna paixão.


Referência

"Soccer Against the Enemy" de Simon Kuper (2006)


Por Victor Butzloff