Com uns 11 anos de idade, entrei para uma escolinha de futebol em Campinas, minha cidade natal. Ideia minha. Eu gostava muito de jogar futebol e queria treinar para melhorar.
Nos dias de jogos, eu sempre ficava um pouco nervoso, com receio de errar.
Pensava se o outro time era melhor do que nós, se o treinador iria me colocar de titular, se eu iria conseguir jogar bastante tempo, se eu iria conseguir marcar gol ou dar alguma assistência, se algum olheiro poderia estar assistindo, se meu pai iria ficar feliz com o meu desempenho…
Enfim, um monte de pensamentos, sensações… Várias emoções envolvidas, inclusive a alegria de ir jogar futebol.
Eis um fato: o jogo é emocionante por natureza, possuindo uma carga emocional inerente à situação competitiva.
Meu pai, na maioria das vezes, falava muito pouco. Tanto na ida para o jogo quanto na volta, poucos comentários.
Porém, lembro de pelo menos duas ocasiões que me marcaram muito.
Teve uma vez que, depois de um jogo, meu pai me disse que eu precisava gostar mais da bola. Na época, não entendi direito isso. “Como assim? Eu gosto muito da bola!”. Lembro que ele tentou explicar: “Você se livra muito rápido da bola… Tenta ficar mais com ela…”
Hoje, com a minha formação, e tudo o que já estudei e trabalhei, além de entender melhor o seu conselho, vejo muitas nuances nessa experiência que apontam para questões complexas, como a abordagem de ensino da escolinha em que eu treinava, a pressão existente desde o futebol infantil, o medo de errar, a dificuldade de ser eu mesmo e deixar fluir todo o meu potencial…
Curiosamente, quando eu ia jogar bola em outros ambientes, às vezes até com meninos mais velhos e melhores do que os da escolinha, eu conseguia jogar muito mais leve e solto. Conseguia curtir o momento e jogar aproveitando ao máximo todo o meu repertório de habilidades.
Veja só como as emoções, no caso dos jogos na escolinha, me atrapalhavam. E lá, ninguém entendia nada sobre isso.
Ninguém percebia que o método de ensino provocava medo de errar, ao invés de incentivar a criança a curtir o jogo e fazer o seu melhor.
Uma outra ocasião que me marcou muito foi uma vez indo para o jogo.
Meu pai, do nada, falou: “Filho, eu quero te dizer que se você quer ser jogador de futebol, se você tem esse sonho, eu apoio você, eu te abençoo.”
Me desculpe, eu não consigo lembrar disso sem dar risada rsrs…
Eu amo meu pai, ele sempre foi o melhor pai para mim, e consigo reconhecer todo o seu esforço em fazer o máximo que podia.
Mas vamos pensar juntos… Como será que uma criança de 12/13 anos recebe essa fala, vinda do nada, antes de um jogo?
Eu não acho que dá para generalizar, mas eu recebi mais ou menos assim: “meu pai acredita em mim… preciso jogar bem para corresponder”.
Com certeza, esse pensamento aumentou minha dificuldade de lidar com as minhas emoções nos jogos.
Para além do futebol, há outras ocasiões semelhantes em relação à dificuldade das crianças de lidar com as emoções na presença dos pais.
Um bom exemplo: aquelas apresentações escolares.
Você lembra das suas apresentações? Como era para você? Tranquilo? Ou dava pelo menos um friozinho na barriga?
Alguém pode até argumentar: “ah, mas tem toda a audiência, o público, que também contribui para deixar a criança nervosa”.
Sim, realmente.
Porém, eu lembro que sentia esse friozinho na barriga em casa na simples entrega de um presentinho de dia das mães ou dia dos pais. “Será que meu pai vai gostar?” Ou “será que a minha mãe vai gostar”?
E não, eu não era uma criança insegura, ansiosa, medrosa, uma criança que alguém diria que tinha dificuldades emocionais. Todas essas experiências eram normais, vivenciadas sem nenhum alarde e faziam parte do meu desenvolvimento como pessoa.
Voltando para o futebol…
Meu pai tinha conhecimentos sobre emoções?
Meu pai sabia como proteger minhas emoções ou como me ajudar a aprender a lidar com as minhas emoções?
Meu pai tinha condições de elaborar uma estratégia de apoio emocional para os treinos e os jogos?
Não. Ele não tinha nada disso. Nunca tinha ouvido falar sobre psicologia do esporte.
É claro que não posso culpar o meu pai, assim como também não posso culpar você pelo que já foi.
Um bom pai e uma boa mãe vão tentar fazer o melhor que puderem por seu filho, por sua filha, e ponto final.
Meu objetivo aqui é, sem julgamentos, te ajudar a potencializar o seu melhor: te ajudar a tornar o seu apoio mais seguro e eficaz.
Vou te apresentar quatro passos essenciais para definir sua estratégia de apoio nos jogos.
Para podermos aprofundar, dividi esse conteúdo em duas partes.
Neste texto, focaremos nos três primeiros passos.
1º Passo - Começa por você
Pai, mãe… Quais são as suas emoções nos jogos do seu filho?
O que você sente? O que você pensa?
Quais são as suas expectativas?
Quais são os seus receios?
Vou compartilhar algumas falas de pais que já ouvi:
- “Eu tenho medo de ele não aproveitar o talento que tem.”
- “Eu tenho medo de ele se frustrar.”
- “Eu acho que ele não nasceu pra isso.”
- “Ele tem que decidir, chamar o jogo pra se destacar.”
- “Eu fico irritado porque ele não presta atenção.”
- “Falta pegada, tem que ter mais raiva no jogo.”
- “Meu filho entra no jogo dormindo, sem vontade.”
- “Eu tenho medo de ele se machucar.”
Com esses exemplos, uma coisa fica muito clara: os pais são afetados emocionalmente de algum modo pelo envolvimento e pelo desempenho dos filhos no futebol.
Como você é afetado?
Pense um pouco sobre isso.
Para você estar no controle do seu comportamento, é muito importante que você perceba suas emoções.
2º Passo - Compreender como o seu filho é afetado emocionalmente
Quais são os padrões de reações emocionais dele nos jogos?
Para responder a essa pergunta, você precisa observar o aspecto visível das reações emocionais, ou seja, as reações comportamentais.
Repare bem nas expressões faciais, na postura, na forma de falar, se ele está muito quieto, ou se está muito agitado, se tenta passar a bola rápido demais, se evita participar do jogo, se chega com agressividade excessiva nas jogadas…

São vários sinais que, quando repetidos numa mesma situação, podem corresponder a uma padrão de reação emocional.
Você pode também conversar com a comissão técnica, com o treinador, com o psicólogo do clube (caso tenha) e perguntar a eles como o seu filho tem se comportado nos treinos e nos jogos na perspectiva deles.
Além de buscar informações com os profissionais que trabalham com o seu filho e de observar bem os aspectos visíveis das reações emocionais dele, você deve também investir no diálogo para conhecer os aspectos invisíveis - os sentimentos e pensamentos que fazem parte das emoções do seu filho.
Vou ressaltar a palavra que usei: diálogo.
Ou seja, não é monólogo.
Não é só você falando, dizendo como ele tem que jogar.
É principalmente você o escutando atentamente, tentando entender como ele se sente, que emoções ele tem vivenciado ao jogar futebol.
Essa questão do diálogo é muito importante. Se você conseguir estabelecer uma boa comunicação com o seu filho, ficará muito mais fácil oferecer um bom apoio.
Para te ajudar, eu quero sugerir algumas perguntas.
Todas foram cuidadosamente elaboradas para que seu filho receba de você a oportunidade de comunicar suas emoções.
Novamente, outra palavra essencial: oportunidade.
Não se deve obrigar ninguém a falar, e sim abrir canais acolhedores de comunicação, dar a oportunidade de falar e receber apoio.
Exemplos de perguntas relacionadas aos jogos:
- Como você está se sentindo em relação ao próximo jogo? Quais emoções você mais sente?
- Como você estava se sentindo durante o jogo? Quais emoções você mais sentia?
- Como você está se sentindo agora em relação ao jogo de hoje (ou de ontem)? Quais emoções você mais sente?
Se você não tinha o hábito de conversar desse modo com o seu filho, no começo pode parecer estranho. Pode ser inclusive que ele não responda nada ou dê respostas curtas.
Não tem problema. Tenha paciência e deixe seu filho à vontade, na liberdade de conversar sobre o que sente.
Ao fazer perguntas como essas, além de incentivar o seu filho a reconhecer as próprias emoções, você estará mostrando que as emoções dele são legítimas, importantes e que você se importa com todas elas.
Acredite, isso já representa um grande apoio!
Nesse diálogo, você deve sempre permitir que ele fale. Seu papel é abrir o canal de comunicação, dar a oportunidade.
Não precisa falar por ele. Deixe ele responder.
Por exemplo: “Filho, como você se sentiu hoje no jogo… Ficou nervoso?”
Opa, se falar desse modo, você já atrapalhou. Assim, você estaria sugerindo uma resposta, e ele provavelmente iria seguir sua sugestão.
E se ele não entender ou responder com uma dúvida?
Faça a pergunta com outras palavras, explicando para ele sobre as emoções.
Por exemplo: “Filho… No jogo, todo mundo sente várias emoções. Você sabe quais são as emoções que as pessoas podem sentir?”
Deixe ele responder e, se necessário, ajude.
“Tem a alegria, o medo, a raiva, a tristeza, a ansiedade… Então… No jogo de hoje, quais emoções você mais sentiu?”
Depois que ele responder alguma emoção, continue ajudando-o a se expressar: “Por que você acha que sentiu essa emoção?”
Experimente fazer as perguntas do jeito que eu estou sugerindo a você, mantendo sempre a neutralidade e jamais induzindo o seu filho a responder de um jeito ou de outro.
Lembre-se de adaptar a linguagem conforme a idade.
E aproveite as janelas de oportunidade.

Os momentos a sós no carro ou em casa são ótimas oportunidades de estabelecer essa conexão emocional.
Investir diariamente em um diálogo amoroso e acolhedor vai te ajudar a conhecer melhor os sentimentos e os pensamentos que compõem os padrões de reações emocionais do seu filho em treinos e jogos, um passo essencial para que você melhore seu apoio.
3º Passo - Identificar como você influencia as emoções do seu filho nos jogos
Após observar e refletir sobre as suas próprias emoções, reconhecendo como você tem se comportado nos jogos do seu filho, e depois de se atentar para as emoções dele, conectando-se com ele, permitindo que ele comunique mais sobre o que ele sente e pensa, você então terá melhores condições para perceber como você tem influenciado o seu filho emocionalmente.
Vou te dar um exemplo comum:
A criança nota que o seu pai a valoriza muito quando ela joga bem (faz grandes jogadas, marca gols, atua como um dos destaques da equipe).
Como ocorre essa supervalorização do desempenho, essa criança pode sentir medo de falhar todas as vezes que o pai comparece ao seus jogos.
Por mais que ela tenha um bom nível de jogo, quando o pai está assistindo, ela trava.
Sua ativação psicofisiológica (que inclui as emoções) sobe para além do ideal e, por isso, ela não consegue jogar o seu melhor.
O pai, que não tem a mínima noção sobre essas questões emocionais, se esforça durante o jogo para torcer, incentivar, orientar.
Ele grita: “Vai Luiz, chuta!”; “Luiz, abre, abre… Pede a bola! Vai pra cima!”
O pai, na melhor das intenções, tenta jogar junto.
Como o Luiz joga bem, em alguns jogos ele até consegue umas jogadas, uns gols, e vibra com o pai, aliviado.
Mas, raramente, o Luiz joga se sentindo leve. Raramente ele consegue se divertir no jogo, tomar as próprias decisões em campo e muito menos corresponder ao seu potencial de performance.

Tentando ajudar, esse pai, na verdade, acaba sempre atrapalhando, limitando o desenvolvimento do filho no futebol.
Nesse exemplo, como o pai tem influenciado as emoções do filho?
No mínimo, o comportamento do pai tem deixado o menino ainda mais nervoso, fora do seu padrão ideal de ativação.
Outros desdobramentos possíveis são sentimentos de tristeza, irritação, culpa e vergonha, principalmente quando o Luiz percebe que não está conseguindo jogar bem.
Esses sentimentos vão além da insatisfação sadia por perder e fazem com que o menino sinta que está desapontando o pai.
Não tenha dúvida, é um sentimento muito ruim.
Isso ainda pode levar o Luiz também a concluir que o seu valor enquanto pessoa está atrelado ao seu desempenho. Assim, qualquer desempenho ruim, abaixo dos padrões mais altos para a sua idade, podem abalar sua autoestima e minar sua autoconfiança.
Veja como uma estratégia de apoio mal planejada pode prejudicar tanto o bem-estar quanto o desenvolvimento da performance de uma criança ou adolescente.
Que você influencia as emoções do seu filho quando o acompanha nos treinos e nos jogos, é um fato. Uma certeza.
Então, é muito importante que você se esforce para entender como você está influenciando ele e, se necessário for, mude sua maneira de se comportar.
O próximo passo
Neste texto, demos os três primeiros passos: olhamos para as nossas emoções, para as da criança e para a influência invisível que exercemos antes, durante e após o jogo.
Isso é a base. Sem esse entendimento emocional, nenhuma técnica funciona.
Mas, na prática, como se comportar na arquibancada quando o juiz apita?
Existe uma linha tênue entre torcer e atrapalhar.
E a ciência do esporte mostra que, muitas vezes, a melhor intenção de “ajudar com instruções” está, na verdade, sabotando a inteligência de jogo das crianças.
Então, como agir? O que falar? O que não falar?
Acesse a continuação deste guia com o 4º Passo: O silêncio treina mais do que o grito.
Vou tratar sobre as boas práticas de arquibancada para garantir que o seu comportamento potencialize a inteligência e a autonomia do seu filho, em vez de sufocá-las.
Até a próxima leitura, faça a lição de casa: atente-se para suas emoções e invista no diálogo.
Grande abraço,
Victor Butzloff