Ao ser interrogado na imigração, senti a emoção inédita de ser um estrangeiro. O agente dominicano, com cara de poucos amigos, parecia ter o poder de nos deportar imediatamente. Foi o comprovante da reserva do voo de retorno para o Brasil que nos liberou.
Esses segundos de tensão foram o pequeno ápice de um turbilhão de sentimentos e dúvidas naturais de quem viaja para uma terra distante e desconhecida. Uma face da existência que eu só conhecia de ler e ouvir falar.
Será que vamos gostar da comida dominicana?
Será que vamos conseguir nos comunicar, mesmo sem falar espanhol nem inglês fluentemente?
Os lugares onde iremos passear são perigosos?
O cartão vai funcionar como o prometido - pagar em pesos dominicanos usando dólares? Vamos conseguir sacar dinheiro nos caixas eletrônicos?
Questões simples que revelam nossa preocupação humana com a adaptabilidade.
Passei por parte disso em 2015, quando saí de Campinas, da casa de meus pais, e fui morar sozinho em Bauru para cursar uma graduação de 5 anos. Lembro de enfrentar diversos questionamentos relacionados à travessia das fronteiras da zona de conforto.
Curiosamente, nossa recente aventura intercontinental de apenas 10 dias me afetou mais.
À primeira vista, pode parecer óbvio: outro país, outro idioma, outra cultura, outro continente. Mas a intensidade provocada pela percepção psicológica de uma mudança de 5 anos geralmente é maior. Bom… nem sempre.
Então, descobri que as coisas no estrangeiro são de fato diferentes. Não é como visitar outro estado ou região do país - o que já nos impressiona. Acho que os antropólogos chamariam de processo de estranhamento, algo assim.
A comunicação, os costumes, os jeitos, a organização social, as raízes históricas, os códigos e significados implícitos… Muito diferentes. Mas também muito parecidos. Afinal, por aqui também fomos e somos colonizados há séculos.
E as boas pessoas… Como fazem diferença! Não importa onde.
Na República Dominicana, tivemos o privilégio de sermos recebidos, guiados, cuidados e paparicados por nossas amigas Ediana, de La Romana, e Jeimy (e sua acolhedora mãe, Maria), de Puerto Plata.
Com elas, ficou tudo mais fácil, leve, seguro, prazeroso e assertivo.
Tínhamos ajuda para analisar opções de airbnb, escolher restaurantes, programar passeios, entender hábitos culturais, locomover-se, comunicar-se e muito mais.
Tudo com pessoas de confiança, genuinamente interessadas no nosso bem-estar.
Antes de embarcarmos, várias vezes ressaltei para minha esposa: “estamos tendo uma oportunidade especial… vamos fazer nossa primeira viagem internacional junto com pessoas que moram lá!”
Ou seja, eu já imaginava que seria bom. Mas não fazia ideia do quão bom! E foi demais!
Pois bem. Por que estou relatando tudo isso?
Primeiro, para deixar registrado nossa profunda gratidão às nossas anfitriãs dominicanas de primeira classe. Vocês são incríveis! Muito obrigado por tudo! De coração!
Segundo, para aproveitar essa experiência turística em uma reflexão sobre o processo de aculturação no futebol.
Embora não seja novidade, acredito que é importante sempre lembrar do quanto as dificuldades de adaptação a um novo contexto geográfico, urbano e sociocultural podem prejudicar o rendimento profissional - seja como atleta, treinador ou outra função.
Se em apenas 10 dias “turistando” pela República Dominicana foi possível sentir um pouquinho das incertezas de ser estrangeiro (não devo ignorar o fato de eu ser um homem branco ruivo, associado facilmente ao fenótipo americano ou europeu, o que no caribe, naturalmente, já desperta um tratamento mais receptivo), penso na complexidade de uma permanência mais duradoura.
Numa estadia longa em outro país, a adaptação precisa ser total. Moradia, alimentação, acesso aos serviços públicos, saúde, escola para os filhos, plano de celular e internet, domínio do idioma e das boas práticas sociais - entre os dominicanos, por exemplo, é habitual recompensar as pessoas com propina (gorjeta) em todas as relações comerciais que você conseguir imaginar - e compreensão dos processos histórico-culturais - uma das questões latentes por lá é o conflito entre haitianos e dominicanos, uma inimizade histórica que hoje se manifesta no cotidiano da população de muitas formas.
Aculturar-se, no entanto, requer não somente um esforço na resolução de necessidades básicas, mas também uma intencionalidade direcionada ao pertencimento. É compreender e se conectar de alma e coração, permitindo que todas as dimensões humanas do novo lugar o atravessem e impulsionem respostas autênticas.
Quando eu estava visitando o Forte de San Filipe, em Puerto Plata, fiquei intrigado. Por que aquele forte existia? Como ele influenciou o desenvolvimento daquela região?
Nas letrinhas do museu no interior do forte restaurado, li que, em 1564, a população pediu à coroa espanhola uma defesa mais robusta contra piratas e corsários ingleses e holandeses. Porém, menos de 30 anos depois da construção, em 1605 e 1606, os próprios espanhóis, forçando o deslocamento dos colonos para Santo Domingo, ao sul, destruíram e abandonaram a região.
Esse evento insano ficou conhecido como “As Devastações de Osorio”, sendo motivado pelo receio da Espanha em perder sua hegemonia no norte e oeste da ilha - a justificativa oficial de deslocar pessoas a força destruindo tudo pelo caminho foi conter os contrabandos de mercadorias e impedir a infiltração do protestantismo.
Depois de quase dois séculos desocupado, o Forte de San Filipe se tornou um centro regular de conflitos entre corsários, espanhóis, franceses, americanos e dominicanos, até a “consolidação” da “independência” do país. Atualmente, funcionando como museu, é a única construção remanescente do século XVI em Puerto Plata.
O interesse intrigante, ansiando por uma compreensão mais aprofundada, se repetiu na Casa de Gregorio Luperón, no Museu do Amber, no Farol de Colombo, no Monumento aos Heróis da Restauração, no Forte San Jose, na Fortaleza Ozama, na Catedral Primada de América…
Como toda essa herança histórica se manifesta nas crenças e comportamentos das pessoas que vivem ali?
Como essa herança histórica influencia a existência, as contradições, as possibilidades, as aspirações, a cultura, a identidade, as relações sociais na República Dominicana?
Não sou historiador nem cientista social. No entanto, quanto mais estudo sobre futebol, mais tenho percebido a importância da dimensão histórico-cultural do esporte. Por isso, essas perguntas me bateram com tanta força enquanto eu “turistava” no país.
Dizem que o futebol é um espelho da sociedade. Se a imagem que vemos num espelho é virtual, um reflexo do objeto real, então essa definição é imperfeita. O futebol é a sociedade. Não é um mundo paralelo. É a manifestação lúdica, histórica, cultural, social, econômica, espiritual… Humana, de pessoas que compartilham similaridades ao mesmo tempo que se distinguem em aspectos únicos de suas subjetividades.
Aculturação é tanto apreender o comum a todos quanto compreender as particularidades de cada subunidade de um sistema social. Do mais explícito ao implícito, os variados símbolos, códigos e significados formados ao longo do tempo interrelacionam-se com os acontecimentos presentes. Tal influência mútua perdura as tradições assim como provoca as ressignificações.
A todo momento, passeando pelas calles dominicanas, eu pensava: “Se eu viesse trabalhar aqui como treinador, o que eu precisaria compreender a nível de país? A nível de província? A nível de cidade? De clube local? E como eu teria que responder a isso?”
Não que eu esteja sonhando em trabalhar no futebol dominicano, que ainda está nos anos iniciais de sua infância. Mas andei refletindo como exercício de preparação mental, antecipando o enfrentamento de desafios futuros na carreira.
Esse contínuo questionamento reflexivo, frente a cada patrimônio histórico e experiência turística, me pegou de um jeito tão forte, que notei uma triste verdade que preciso urgentemente mudar: eu não estou bem aculturado ao meu país, ao meu estado e à minha cidade.
Tenho muito o que estudar e compreender em relação aos nossos processos histórico-culturais brasileiros. Reconhecer isso, admito, é difícil. Porém, é também um ótimo pontapé inicial.
Além da constatação dessa falta, minha segunda conclusão é que o desenvolvimento de “habilidades de aculturação” deve ser seriamente promovido na formação de jogadores e treinadores.
No futebol, como impera a lógica de resultados imediatos, além de total, a adaptação precisa ser extremamente rápida. E quanto mais completa, melhor. Ou seja, tem que ocorrer uma aculturação.
Obviamente, é inviável preparar-se simultaneamente para todos contextos possíveis de atuação profissional. Contudo, e quanto aos fundamentos, aquelas noções e habilidades básicas que poderiam facilitar uma aculturação em qualquer lugar?
Ainda não pesquisei isso na literatura científica. Por certo, deve haver bons materiais com conceitos precisos e diretrizes práticas.
Mas, para fins de uma reflexão descompromissada como esta, se eu tivesse que listar “habilidades fundamentais de aculturação”, pensando inclusive em desenvolvê-las para me ajudar em desafios futuros, tentaria algo assim:
- Autoconhecimento, Inteligência Emocional e Empatia - para ser sensível ao outro e a si mesmo, facilitando conexões saudáveis;
- Observação, leitura e interpretação crítica - para compreender o que for preciso além do superficial e da aparência, dentro e fora de campo;
- Domínio ao menos intermediário de outros idiomas - para ter autonomia nas comunicações e conseguir expressar-se bem.
Sensibilidade, leitura contextual e comunicação, poderiam talvez formar o tripé da aculturação. “Como ser”, “como assimilar” e “como se comunicar”.
O que mais você incluiria nessa lista? Deixe nos comentários, conto com sua ajuda na minha preparação.
Um ponto interessante é que, embora ter pessoas de confiança por perto - como eu tive na República Dominicana - possa facilitar todo um processo de adaptação e evitar inconvenientes, as “habilidades fundamentais de aculturação” não podem ser terceirizadas. Muito menos a intencionalidade de querer pertencer a um país, uma cidade e um clube.
Hoje, as grandes equipes contam com profissionais dedicados exclusivamente a auxiliar na adaptação e concentração dos jogadores. De assuntos “extracampo”, os “Player Care” (Cuidado ao Jogador) resolvem de tudo, com a finalidade última de evitar que as distrações atrapalhem a performance dos atletas.
Qual o limite benéfico dessa função, eu nunca parei para pensar. No entanto, no que tange ao alvo desta reflexão, penso que qualquer auxílio que um Player Care possa oferecer não dá conta da complexidade do processo de aculturação.
Não importa o lugar ou o clube: onde há pessoas sempre haverá processos histórico-culturais em desenvolvimento. Por isso, aqueles que desejam se preparar com excelência em todas as dimensões do futebol devem atentar-se para as “habilidades fundamentais de aculturação” com muito zelo e carinho.
Por Victor Butzloff