Muitos pais se perguntam: “Se eu não posso gritar instruções, o que eu faço? Fico mudo?”
Não. Você deve ser estratégico.
O futebol moderno exige tomada de decisão rápida. E para que seu filho desenvolva essa competência, o ambiente ao redor dele precisa favorecer a autonomia, não a dependência.
No último texto, expliquei três passos essenciais para definir uma estratégia de apoio segura e eficaz nos jogos do seu filho.
Vimos que, antes de olhar para a criança, os pais precisam examinar a si mesmos.
(Se você perdeu a Parte 1, recomendo fortemente que leia aqui antes de continuar: O pai na arquibancada).
Hoje, vamos para a prática no jogo - o quarto passo para definir sua estratégia de apoio:
4º Passo - Siga as boas práticas
Muitos clubes e até federações, seguindo recomendações de especialistas em psicologia do esporte e treinamento, disponibilizam cartilhas e passam orientações ao pais a respeito desse tema.
Talvez você já tenha sido orientado algumas vezes e agora está entendendo melhor o motivo de certas recomendações. Se você nunca ouviu falar sobre isso, não tem problema. Agora eu vou passar para você 3 boas práticas fundamentais que vão te ajudar a deixar sua estratégia de apoio mais segura e eficaz.
1 - Eduque pelo exemplo
Há um versículo bíblico bastante conhecido que diz “ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele”.
Quero destacar a expressão “no caminho em que deve andar”.
Você é responsável por apontar esse caminho. Você é responsável por apontar qual é a referência de conduta, de comportamento, de caráter, de como lidar com as emoções. Então, quando você estiver assistindo a um treino ou jogo do seu filho, lembre-se do caminho que você deseja para ele.
Infelizmente, o que vemos por aí é que, quando envolve o futebol, as pessoas se permitem perder o controle. Se permitem ofender os outros, desrespeitar, agredir.
Os estádios normalmente são ambientes em que hostilidades de vários tipos e níveis são praticadas independente da presença de crianças.
E nos jogos do seu filho? A triste realidade é ver esse cenário se repetir. Pais ofendendo crianças, adversários, árbitros, treinadores… Uma perda total da postura, do respeito, um distanciamento enorme do “caminho em que se deve andar”.
Qual é o caminho em que se deve andar? Qual é o caminho em que se deve andar você quer para o seu filho? O exemplo de como trilhar esse caminho começa por você.
2 - Evite os excessos
Se você chegou até aqui, eu tenho certeza que você já percebeu como esse assunto é complexo, sensível e fundamental para que o seu filho se desenvolva bem tanto no futebol e quanto na vida.
Se você está preocupado, se perguntando se o que você tem feito nos jogos tem prejudicado ou ajudado o seu filho, você está na direção certa. Parabéns! Continue nessa direção para sempre, observando-se, refletindo, comunicando-se com o seu filho, refletindo, refletindo… E ajustando o seu comportamento conforme o necessário.
Para te ajudar nesses ajustes, a dica que eu te dou é essa: evite os excessos.
Nos jogos do seu filho, procure agir de forma equilibrada. Demonstre interesse, mas não a ponto de supervalorizar aquela situação. Evite posturas rígidas, caras sérias e fechadas, braços cruzados… Sinais corporais que passem mensagens como “estou avaliando você” ou “você não está me agradando”.

Torça por ele, mas sem gritar o tempo todo - sorria, acene e vibre de forma equilibrada. Sofra com ele, mas sem perder o autocontrole - evite expressões de raiva e de muita tristeza. Lembre-se de que as suas emoções podem influenciar o seu filho.
Ele já precisa aprender a lidar com as emoções inerentes ao jogar. A situação de treino e de jogo já provoca por essência muitas emoções. Logo, a criança, se estiver sendo bem conduzida nesse processo, estará aprendendo aos poucos a identificar e a lidar com essas emoções, conforme o seu nível de desenvolvimento.
Para crianças, não há necessidade de deixar o ambiente de jogo ainda mais carregado emocionalmente. Tem um mito de que a criança deve ser exposta a um ambiente de pressão para que possa aprender a ser forte mentalmente.
Afinal, como dizem, “no profissional vai ser assim”.
Já faz várias décadas que os estudos científicos no futebol provam que esse é um dos erros mais graves que podem ser cometidos. O que a criança não precisa para aprender é de um excesso, de uma sobrecarga emocional e cognitiva vinda dos treinadores e das arquibancadas.
Quando isso ocorre, o desafio emocional ultrapassa os limites da criança. A carga emocional atinge um peso para além do que ela consegue gerenciar. Isso prejudica muito seu bem-estar no futebol e também a sua aprendizagem.
Portanto, faça a sua parte e evite os excessos. Contribua para que o ambiente de jogo do seu filho seja adequado à idade dele, favorável para o seu divertimento e para o seu desenvolvimento em todas as dimensões do futebol, inclusive a psicológica.
3 - Seja um pai que coopera (e não um treinador concorrente):
Neste texto voltado para pais estamos abordando uma parte importante do papel que cabe a você no desenvolvimento do seu filho: o apoio emocional. Ou seja, em relação a esse assunto, você tem um papel, as suas responsabilidades.
Isso significa que o que cabe a você, ninguém pode fazer.
O mesmo se aplica aos profissionais que atuam no futebol, exercendo papéis específicos, como treinadores e psicólogos do esporte - eles têm formações e experiências que se traduzem em possibilidades específicas de contribuir na formação do seu filho.
Você não pode exercer os papéis deles assim como eles não podem exercer o seu papel. Por isso, ao invés de ser um pai ou uma mãe que compete com a atuação dos que trabalham com o filho, seja um cooperador.
Sendo bem direto: o hábito de instruir a criança durante o jogo é um tiro no pé. Ao fazer isso, além da pressão emocional, você sobrecarrega a percepção e o processamento cognitivo do seu filho, prejudicando sua leitura de jogo.
Ou seja, a criança que é instruída toda hora perde as oportunidades de aprender a perceber o ambiente - movimentação dos adversários e dos companheiros - e tomar decisões.
Mesmo que suas instruções sejam assertivas para resolver o problema momentâneo do jogo, elas não vão formar no seu filho um jogador inteligente.
O mesmo se aplica para os instantes seguintes da partida - não adianta despejar análises táticas pós jogo numa criança que acabou de se desgastar fisicamente e mentalmente. Ainda que esteja descansada, é preciso paciência.
Outro detalhe importante: sua preocupação em orientar “o seu filho” a todo custo também prejudica a performance coletiva.
Ele pode até ganhar jogos e campeonatos praticamente sozinho no futebol infantil graças à sua força ou habilidade acima da média.
Mas, e lá na frente? Quando o funil se estreitar e ele tiver que enfrentar jogadores tão fortes e habilidosos quanto ele, o que vai fazer a diferença?
A inteligência de jogo. A longo prazo, aquele que aprendeu a tomar decisões assertivas e articuladas com a equipe tende a prosseguir no processo de seleção e formação.
Você pode estar se perguntando: “poxa, não posso fazer nada então”!
Muitas vezes, meu caro, menos é mais.
Quer realmente contribuir com a formação do seu filho?
Aproxime-se do treinador dele. Conheça suas ideias, seu método de trabalho, seus objetivos. Ouça o que ele tem a dizer sobre o seu filho. Pergunte a ele como você pode ajudar.
Isso se aplica a qualquer outro profissional (nutricionista, fisioterapeuta, preparador físico, psicólogo, analista, etc).
Ensine seu filho a valorizar cada papel e poder de contribuição.
Se o seu filho, por exemplo, manifestar a você uma dúvida em relação a tática ou algum aspecto do jogo, incentive ele a perguntar também ao treinador dele.
Compartilhe sim os seus conhecimentos, mas não tente exercer um papel que não lhe cabe. Pelo contrário, ensine o seu filho a respeitar e a aproveitar o melhor de cada um.

Assim é que se aprende a jogar em equipe. Agindo como um cooperador, você estará potencializando o trabalho desses profissionais e ajudando o seu filho a desenvolver habilidades essenciais para o futebol e para a vida.
Aqui, deixo também dois lembretes importantes: se o profissional que está trabalhando com o seu filho for uma ameaça à sua saúde física ou psicológica, não hesite em trocá-lo de ambiente.
O segundo lembrete é: não hesite em pedir ajuda. Sobre aspectos psicológicos e emocionais relacionados ao futebol, psicólogos do esporte são os profissionais especialistas que podem ajudar você e seu filho a se desenvolverem muito mais.
Concluindo
Abordamos quatro passos para definir a sua estratégia de apoio nos jogos do seu filho.
Como em uma longa caminhada, esses passos devem ser dados repetidas vezes. Trata-se de um processo contínuo, em que sempre haverá algo para aprender e melhorar.
Também haverá aspectos únicos na sua estratégia.
Ninguém é igual a você. E ninguém é igual ao seu filho.
Portanto, a estratégia de apoio será sempre personalizada. Esses quatro passos são recomendados para todos, mas a dinâmica da passada é única em cada relação familiar.
Retomando, os quatro passos para você definir sua estratégia de apoio nos jogos são:
- Compreender suas próprias emoções;
- Compreender as emoções do seu filho;
- Identificar como você influencia as emoções do seu filho;
- Seguir as boas práticas de apoio (educar pelo exemplo, evitar os excessos e ser um cooperador).
Um silêncio e sorriso carinhoso devem ser o pontapé inicial e o apito final de qualquer partida.
Grande abraço,
Victor Butzloff